Psicanálise lacaniana: compreenda a teoria e prática que revolucionou a Psicanálise  

Descubra os princípios da psicanálise lacaniana, sua importância, conceitos fundamentais e impacto na psicologia moderna. Um guia completo e acessível.  

Palavras-chaves

Psicanálise Lacaniana, Jacques Lacan, teoria lacaniana, inconsciente estruturado como linguagem, clínica lacaniana, psicanálise moderna, psicologia freudiana, psicanálise estruturalista  

Psicanálise Lacaniana: um guia (quase) completo para entender esta corrente revolucionária da psicanálise moderna. 

A psicanálise lacaniana é uma abordagem fascinante dentro da psicanálise, marcada pela contribuição singular do psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981). Seus ensinamentos  reformularam conceitos freudianos, trazendo um olhar linguístico e estruturalista para o inconsciente. Mas o que exatamente é a psicanálise lacaniana e por que ela é tão influente? Vamos explorar.

O que é Psicanálise lacaniana?

Jacques Lacan, um psicanalista francês do século XX, revolucionou a psicanálise ao integrar a linguística, a filosofia e a antropologia em suas teorias. Ele acreditava que o inconsciente era estruturado como uma linguagem, diferindo da visão tradicional freudiana.  

Lacan dividiu sua obra em três registros principais: o Real, o Simbólico e o Imaginário (RSI). Esses conceitos são a base de sua teoria e ajudam a compreender a subjetividade humana em diferentes dimensões.  

– Real: refere-se ao que é impossível de simbolizar ou representar;

– Simbólico: envolve as estruturas de linguagem e regras sociais;

– Imaginário: relaciona-se com a formação do ego e a percepção de si mesmo.  

Os principais conceitos da psicanálise lacaniana

  1. O Inconsciente Estruturado como Linguagem 

Lacan propôs que o inconsciente opera de maneira semelhante à linguagem, sendo regido por leis gramaticais e estruturais. Essa ideia se baseia na teoria linguística de Ferdinand de Saussure e no estruturalismo de Claude Lévi-Strauss.  

2. Estádio do Espelho

Um dos conceitos mais conhecidos de Lacan, o Estádio do Espelho descreve o momento em que a criança reconhece sua imagem no espelho e forma seu ego. Esse reconhecimento, no entanto, é ilusório, pois a imagem refletida não corresponde à totalidade do eu.  

3. Desejo e a Falta

Lacan afirma que o desejo humano é sempre marcado pela falta. O sujeito nunca consegue preencher totalmente o vazio, perpetuando o ciclo do desejo.  

4. Nome-do-Pai e a Lei Simbólica

A entrada no mundo simbólico ocorre através do Nome-do-Pai, que representa a internalização das regras e normas sociais.  

A clínica lacaniana na prática

Na clínica lacaniana, o foco não é apenas no conteúdo manifesto das palavras, mas também nos lapsos, silêncios, atos falhos, chistes (humor) e ambiguidades da fala. O analista ocupa uma posição de escuta “flutuante”, quer dizer, sem se interessar especialmente por um ou outro assunto, dando a todos a mesma importância e intervém para revelar os significantes que estruturam o inconsciente do paciente.  

Por que a Psicanálise lacaniana é diferente?

– Uso da linguagem: mais do que interpretar sonhos ou traumas, Lacan explora como o discurso do paciente revela seus desejos inconscientes.  

– Subjetividade e singularidade: cada indivíduo é visto como único, com significantes específicos moldando sua psique. 

– Foco na estrutura: ao invés de sintomas isolados, busca-se entender como eles se encaixam na estrutura subjetiva do paciente.  

A Influência da Psicanálise lacaniana na Psicologia moderna

Lacan teve um impacto duradouro na psicanálise e em campos como filosofia, literatura e estudos culturais. Seu trabalho continua sendo estudado em instituições de ensino superior e é uma referência essencial para quem deseja aprofundar-se na psicanálise contemporânea.  

Exemplos de aplicação 

– Análise clínica: a análise pessoal pode trazer alívio para sofrimento psíquico como ansiedade, insônia, depressão, luto, sensação de estar estagnado(a) na vida, distúrbios alimentares e muitos outros;  

– Educação: compreensão do desenvolvimento infantil;

– Literatura e arte: análise de textos e obras de arte a partir da perspectiva do inconsciente estruturado como linguagem. 

– Cinema: interpretação de personagens e narrativas complexas;

Críticas e Controvérsias em torno de Lacan

Como todo pensador de vanguarda, Lacan também enfrentou críticas. Sua escrita densa e, às vezes, hermética, é considerada desafiadora até mesmo para estudiosos experientes. Além disso, alguns argumentam que seu ensinamento é excessivamente teórica e difícil de aplicar na prática clínica. Há ainda uma polêmica em torno das sessões com tempo variável, que, para alguns, não é o ideal. Contudo, nenhuma dessas críticas são capazes de desqualificar Lacan, cujos ensinamentos seguem sendo referência incontornável para quem deseja praticar a clínica psicanalítica. 

Como estudar a Psicanálise lacaniana?

Se você deseja se aprofundar, aqui estão algumas dicas:  

1. Leia os Seminários de Lacan: textos como “O Seminário: Livro XI – Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise” são essenciais;

2. Participe dos Cartéis: discutir conceitos com colegas lacanianos pode ajudar a compreender as ideias mais complexas;   

3. Análise pessoal: a psicanálise é, sobretudo, uma experiência. A formação é constituída pelo tripé: estudo, prática clínica e análise pessoal. Portanto, sem passar pelo percurso da própria análise pessoal, não é possível se autorizar como analista. 

Conclusão

A psicanálise lacaniana oferece uma perspectiva única sobre a mente humana, misturando filosofia, linguística e teoria psicanalítica. Apesar de suas complexidades, sua influência é inegável e continua a moldar a maneira como entendemos a subjetividade e o inconsciente de nossa época.  

FAQs sobre Psicanálise lacaniana

1. O que diferencia Lacan de Freud? 

   Lacan reinterpreta Freud com ênfase na linguagem, enquanto Freud concentra-se na energia psíquica e nos estágios de desenvolvimento.

2. Por que o Estádio do Espelho é tão importante? 

   Ele explica como o ego se forma com base em uma ilusão, essencial para entender a subjetividade humana.  

3. A psicanálise lacaniana é prática?

   Sim, especialmente na clínica, onde a fala, os sonhos, os chistes e os atos falhos do paciente são cuidadosamente analisados para revelarem padrões inconscientes, sobretudo ligados ao desejo, ao gozo e à fantasia. 

4. Quais são os desafios ao estudar Lacan? 

   Sua linguagem complexa e os conceitos abstratos podem ser difíceis para iniciantes, mas valem o esforço.  

5. Onde posso aprender mais sobre Lacan?

   Livros, seminários e cursos de instituições psicanalíticas são ótimos pontos de partida.  

Psicanálise: saúde mental e o mercado de trabalho atual

Em um mundo cada vez mais acelerado e competitivo, a saúde mental tornou-se uma preocupação central, especialmente no contexto do mercado de trabalho. A pressão por desempenho, os prazos apertados e as expectativas elevadas podem criar um ambiente propício ao estresse, ansiedade e esgotamento.

Nesse cenário, a psicanálise emerge como uma ferramenta valiosa para compreender e lidar com os desafios emocionais enfrentados pelos profissionais contemporâneos. Ao explorar as raízes profundas dos pensamentos e comportamentos, a psicanálise oferece ferramentas essenciais para promover o equilíbrio emocional e o bem-estar no ambiente de trabalho.

Um dos principais aspectos abordados pela psicanálise é a importância de reconhecer e validar as emoções no ambiente profissional. Muitas vezes, a pressão para suprimir sentimentos em prol da produtividade pode resultar em conflitos internos e consequências negativas para a saúde mental. É fundamental criar um espaço onde os profissionais se sintam seguros para expressar suas emoções e vulnerabilidades, sem medo de julgamento.

Além disso, a psicanálise nos lembra da complexidade da mente humana e da singularidade de cada indivíduo. O que pode parecer um problema superficial no trabalho muitas vezes tem raízes mais profundas em experiências passadas, traumas não resolvidos ou conflitos internos. Ao explorar esses aspectos mais profundos da psique, os profissionais podem desenvolver uma compreensão mais completa de si e de suas dinâmicas interpessoais no ambiente de trabalho.

No entanto, é importante ressaltar que a psicanálise não se limita à análise retrospectiva, mas também oferece ferramentas práticas para promover mudanças positivas no presente. Através do processo analítico, os profissionais podem desenvolver habilidades de autorreflexão, autogestão emocional e comunicação eficaz, que são essenciais para o sucesso e a satisfação no trabalho.

Em suma, a integração da psicanálise no contexto do mercado de trabalho contemporâneo representa uma abordagem holística e humanizada para promover a saúde mental e o bem-estar dos profissionais. Ao reconhecer e valorizar a complexidade da experiência humana, podemos criar ambientes de trabalho mais saudáveis, produtivos e gratificantes para todos.

Vejamos abaixo 3 formas pelas quais a psicanálise pode auxiliar os sujeitos a lidarem com o mercado de trabalho:

  1. Aprimorar a linguagem e da comunicação: Na psicanálise lacaniana, a linguagem desempenha um papel central na construção da realidade e na formação da identidade. No mercado de trabalho atual, onde a comunicação eficaz é essencial, entender como a linguagem influencia nossas interações pode ser crucial. Ao explorar como os discursos sociais moldam nossas percepções e comportamentos, os profissionais podem desenvolver habilidades de comunicação mais conscientes e assertivas, facilitando relacionamentos interpessoais saudáveis e eficazes.
  2. Encontrar seu desejo e satisfação possível: Lacan enfatiza o papel do desejo na motivação humana, destacando que buscamos satisfação além das necessidades básicas. No mercado de trabalho, onde a busca por sucesso e realização é constante, compreender as motivações profundas por trás de nossas aspirações profissionais pode nos ajudar a definir metas realistas e alinhadas com nossos verdadeiros desejos. Isso pode resultar em uma abordagem mais autêntica e satisfatória para a carreira, reduzindo o estresse e a ansiedade associados à busca incessante por realizações externas.
  3. Adquirir noção de identidade e alienação: a psicanálise explora como a identidade é formada através das interações sociais e como isso pode levar à sensação de alienação. No mercado de trabalho, onde as pressões externas muitas vezes moldam nossa autoimagem, é essencial cultivar uma compreensão sólida de quem somos e do que valorizamos. Ao reconhecer as influências externas que moldam nossa identidade profissional, podemos buscar uma integração mais autêntica de nossos valores pessoais e aspirações, promovendo uma sensação de integridade e autenticidade no trabalho.

Uma pessoa saudável não é aquela que não tem problemas, mas aquela que, em meio às turbulências, consegue acessar seus recursos internos e sociais para enfrentar as adversidades. A psicanálise pode ajudar nesse processo.

Quer gerenciar melhor suas emoções no ambiente de trabalho? Entre em contato e agende sua sessão.

Psicanálise: o que é, para que serve e como funciona

Créditos da imagem: Australia National Galery. Douglas B. Snelling, designer. Rocking chair. Foto pessoal

O que é a psicanálise

A análise é uma prática de palavra.

Trata-se de uma prática não regulamentada. Isso quer dizer que não há lei ou órgão de fiscalização da profissão, diferente do que ocorre com a Psicologia, por exemplo, cujo órgão fiscalizador é o Conselho de Psicologia ou com a Medicina, cujo órgão fiscalizador é o Conselho de Medicina. Isso não quer dizer que ela não tenha que obedecer às leis do país ou que o psicanalista possa agir como quiser e não tenha uma ética a seguir. Há uma orientação da prática, que é feita normalmente pelas escolas de formação em psicanálise. Há diversas escolas e correntes psicanalíticas ao redor do mundo, entre elas a jungiana (de Jung), a lacaniana (de Lacan), a kleiniana (de Melanie Klein), a winnikottiana (de Winnicott) e, claro, a Freudiana, de Sigmund Freud, considerado o “pai” da psicanálise. Cada uma dessas escolas tem sua orientação para a formação de seus analistas. O que não se tem é uma regra que seja comum para todas. A psicanálise é exercida por profissionais que tenham curso superior em qualquer área do conhecimento. Contudo, a prática legitimada por uma das escolas de psicanálise pressupõe que o analista tenha passado por processo de formação específico, que consiste normalmente em: análise pessoal, estudos (participação em seminários, congressos, jornadas, cartéis (grupos de estudo na escola lacaniana), supervisão e controle da prática.  

Para que serve a psicanálise

O analisante, como é chamada a pessoa que faz análise, normalmente procura a psicanálise em razão de um sofrimento psíquico, um sintoma que atrapalha o curso normal de sua vida. Pode ser, por exemplo, relacionamentos conturbados, fobias, dificuldades no trabalho, dificuldades para dormir, problemas alimentares, depressão, vícios, ansiedade. O sintoma na psicanálise não é visto necessariamente como uma doença, mas sim como uma tentativa de solução inconsciente para uma questão emocional. Uma análise bem conduzida e levada até seu final pode aliviar o sofrimento e transformar a forma como o analisante lida com seu sintoma.

Como funciona a psicanálise

O analisante encontra o analista, aquele a quem coloca na posição de quem sabe sobre seu sintoma e sabe como solucioná-lo. Estabelece-se entre analista e analisante a transferência, parte importante do tratamento. A transferência é a relação entre ambos que permite ao analisante “atualizar” na sessão situações passadas que ainda estão produzindo efeitos no presente.

A fala na análise é diferente da conversa comum que se tem com parentes e amigos, por exemplo. Trata-se da chamada “associação livre”. Nela o analisante é convidado a falar tudo o que vier à sua cabeça no momento da sessão, sem medo ou vergonha, sem se preocupar com a ordem das ideias, com a coerência, com o sentido, com a forma, ou se o analista está ou não entendendo. Parece fácil, mas é talvez a parte mais difícil do tratamento. O analista, por sua vez, tem uma escuta treinada para ouvir as manifestações do inconsciente. Tratando-se de um analista lacaniano, ele vai buscar o desejo por traz do que é dito. O analista capta isso nos equívocos, nas homofonias (palavras que se assemelham pelo som), nos impasses, nas pausas, suspiros, recuos, negações, nas faltas à sessão, na forma como o analisante lida com o dinheiro, entre outras tantas referências. 

A escuta analítica é quase uma leitura: é um trabalho de pontuação, de interpretação do “texto”, de sublinhar algumas palavras, eliminar repetições, orientar o ritmo. Durante o período da análise, o inconsciente “trabalha” e produz seus conteúdos, que, por sua vez, podem ser objeto da análise: sonhos, atos falhos, humor são alguns deles. Todo esse material serve de pista para se seguir as trilhas do desejo inconsciente e da formação do sintoma.  A partir desse “encontro” com o inconsciente, o analisante pode criar novas soluções ali onde havia o sintoma, produzir novas interpretações, mais funcionais, para lidar com as dificuldades da vida. 

Quer saber mais? Seguem os principais links da escola Lacaniana no Brasil e na França:

Associação mundial de psicanálise

https://www.wapol.org/pt/template.asp

Escola Brasileira de Psicanálise

https://www.wapol.org/pt/template.asp

École de la cause freudienne (Escola da Causa Freudiana – Paris – França) https://www.causefreudienne.org

Os seis paradigmas do gozo, segundo Jacques-Alain Miller*

Paradigma 1: a imaginarização do gozo

Vemos aqui a busca de sentido na fala. A comunicação é intersubjetiva e dialética. Prevalece o registro imaginário. 

Paradigma 2: a significantização do gozo

O imaginário ganha consistência simbólica. O gozo se divide entre o desejo e a fantasia. Ele é, por um lado, o desejo como significado da demanda inconsciente e, por outro lado, desejo morto, como função significante. 

Paradigma 3: o gozo impossível

O gozo real. Quer dizer que a satisfação pulsional não se encontra nem no imaginário nem no simbólico. Ela está no real. No impossível. 

Paradigma 4: o gozo normal

Há aqui uma estreita relação entre o significante (o simbólico) e o gozo. O gozo tem como elemento o objeto a (objeto causa de desejo).

Paradigma 5: o gozo discursivo

Há uma relação discursiva entre os significantes e o gozo. A repetição do significante é repetição de gozo. O significante é o signo do sujeito. 

Paradigma 6: a não-relação

Há uma disjunção entre significante e significado, disjunção do gozo e do Outro, disjunção do Homem e da mulher sob a forma de “A relação sexual não existe”. Todos os termos que asseguravam a relação – o Outro, o Nome-do-Pai, o falo – reduzem-se a conectores. O laço, entre rotina e invenção. 
* Jacques-Alain Miller é psicanalista na França. Ele é herdeiro dos direitos sobre as obras de Jacques Lacan - também psicanalista francês, seu genro. Vem contribuindo para o ensino e transmissão da psicanálise lacaniana, principalmente pela participação na fundação da École de la cause freudienne e da Association Mondiale de la Psychanalyse. 
 
Fonte:  Curso L’Orientation Lacanienne, “Les six paradigmes de la jouissance”, ministrado por Jacques Alain-Miller na Universidade Paris 8, Paris, França, 1999, inédito.

Revista eletrônica de psicanálise: Opção Lacaniana online, Ano 3, Número 7, março 2012.

Psicanálise, a arte de traduzir e interpretar a si mesmo.

O sujeito é dividido. É tudo, nada, todos, ninguém; estrangeiro e íntimo de si. Surpreende-se. Decifrar-se. Despe-se. Recria-se. Sim, respondo ao poeta, traduzir-se é arte. Mas também poderia ser psicanálise. 

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim

é todo mundo;

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

Uma parte de mim

pesa, pondera;

outra parte

delira.

Uma parte de mim

almoça e janta;

outra parte

se espanta.

Uma parte de mim

é permanente;

outra parte

se sabe de repente.

Uma parte de mim

é só vertigem;

outra parte,

linguagem.

Traduzir-se uma parte

na outra parte

— que é uma questão

de vida ou morte —

será arte?

Ferreira Gullar. Na vertigem do dia, 1980.

https://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm%3Fsid%3D1042/textos-escolhidos

Interpretação X Intervenção analíticas

Imagem: Foto pessoal – Art Gallery of South Australia dez/2022. Autoria: Marc NEWSON, LC1 chaise longue, 1986, Sydney. 

Há diferenças entre Interpretação e intervenção analíticas.

Uma interpretação é uma intervenção, mas nem toda intervenção é uma interpretação. 

Ambas podem causar surpresa, gerar reflexões, associações, risos…

Mas uma boa interpretação é caracterizada por sua raridade. E não basta que o analisante concorde ou se entusiasme com a descoberta. O que importa é o resultado que causa. Ela deve provocar no analisante uma transformação do seu sintoma. 

Trata-se de um ato do analista, um “ato aposta”. E como ato, produz um antes e um depois. 

Já a intervenção pode ocorrer com mais frequência. Sua função é dar continuidade à palavra analisante, mantendo o discurso ativo e o desejo de saber sobre o inconsciente. 

Reflexão inspirada pela intervenção feita por Hervé Castagnet, em “Interprétation/Interpretations” – Ensinamento aberto da École de la Cause Freudienne, Paris, França, 6 de janeiro de 2022. 

Se…

A water Baby, (1895). By Herbert James Draper, (1863-1920). Óleo sobre tela, 68,5×68,5 cm. Créditos a @Iagra_art.

Poema de Rudyard Kipling, escrito em 1895, é uma boa reflexão para o fim do ano e uma inspiração para os novos tempos que se anunciam. 

Se fomos capazes de tudo isso, “seremos melhores seres humanos!”, eu diria. 

Se 

Rudyard Kiplin

Tradução de Guilherme de Almeida. 

Se és capaz de manter tua calma, quando,

todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.

De crer em ti quando estão todos duvidando,

e para esses no entanto achares uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,

ou, enganado, não mentir ao mentiroso,

Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,

e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,

de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.

Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,

tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,

em armadilhas as verdades que disseste

E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,

e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,

tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.

E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,

resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,

a dar seja o que for que neles ainda existe.

E a persistir assim quando, exausto, contudo,

resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,

e, entre Reis, não perder a naturalidade.

E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,

se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,

ao minuto fatal todo valor e brilho.

Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,

e – o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!

SI…

Si tu peux voir détruit l’ouvrage de ta vie

Et sans dire un seul mot te remettre à rebâtir,

Ou perdre d’un seul coup le gain de cent parties

Sans un geste et sans un soupir ;

Si tu peux être amant sans être fou d’amour,

Si tu peux être fort sans cesser d’être tendre

Et, te sentant haï, sans haïr à ton tour,

Pourtant lutter et te défendre ;

Si tu peux supporter d’entendre tes paroles

Travesties par des gueux pour exciter des sots,

Et d’entendre mentir sur toi leurs bouches folles

Sans mentir toi-même d’un seul mot ;

Si tu peux rester digne en étant populaire,

Si tu peux rester peuple en conseillant les rois

Et si tu peux aimer tous tes amis en frère

sans qu’aucun d’eux soit tout pour toi ;

Si tu sais méditer, observer et connaître

Sans jamais devenir sceptique ou destructeur ;

Rêver, mais sans laisser ton rêve être ton maître,

Penser sans n’être qu’un penseur;

Si tu peux être dur sans jamais être en rage,

Si tu peux être brave et jamais imprudent,

Si tu sais être bon, si tu sais être sage

Sans être moral ni pédant ;

Si tu peux rencontrer Triomphe après Défaite

Et recevoir ces deux menteurs d’un même front,

Si tu peux conserver ton courage et ta tête

Quand tous les autres les perdront,

Alors les Rois, les Dieux, la Chance et la Victoire

Seront à tout jamais tes esclaves soumis

Et, ce qui vaut mieux que les Rois et la Gloire,

Tu seras un homme, mon fils

E a versão original em Inglês: 

If…

If you can keep your head when all about you,

Are losing theirs and blaming it on you,

If you can trust yourself when all men doubt you,

But make allowance for their doubting too;

If you can wait and not be tired by waiting,

Or being lied about, don’t deal in lies,

Or being hated, don’t give way to hating,

And yet don’t look too good or talk too wise:

If you can dream and not make dreams your master;

If you can think and not make thoughts your aim;

If you can meet with Triumph and Disaster

And treat those two impostors just the same;

If you can bear the words you’ve spoken

Twisted by knaves to make a trap for fools,

Or watch the things you gave your life to, broken,

And stoop and build ‘em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings

And risk it on one turn of pitch-and-toss,

And lose, and start again at your beginnings

And never breathe a word about your loss;

If you can force your heart and nerve and sinew

To serve your turn long after they are gone,

And so hold on when there is nothing in you

Except the Will which says to them:”Hold on!”

If you can talk with crowds and keep your virtue,

Or walk with Kings–nor lose the common touch,

If neither foes nor loving friends can hurt you,

If all men count with you, but none too much;

If you can fill the unforgiving minute

With sixty seconds worth of distance run,

Yours is the Earth and everything that’s in it,

And–which is more–you’ll be a man, my son!

Round 6 – O desejo e suas representações

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é round-6.jpeg
Netflix – Round 6. Fonte: BBC News Brasil. [1]

Round 6, ou Squid Game (O jogo da lula) é uma série lançada em setembro de 2021, dirigida e escrita por Hwang Dong-hyuk, que começou a concebê-la ainda em 2008.[2] Muito tempo de dedicação e trabalho fizeram o sucesso meteórico na Netflix e redes sociais do mundo inteiro. As discussões que suscita variam em temas como capitalismo e seus “restos”, desigualdade social, pobreza, misoginia, crise política, corrupção[3], banalização da vida humana, medo e a desconfiança no outro. Mas para além disso, a dramática e violenta trama escancara o trauma: a disjunção entre o desejo e sua representação, de outro modo, entre o significante e o significado. Sem filtro, somos expostos, indefesos, ao real desse “jogo” macabro, que bem pode ser visto como a metáfora da vida humana contemporânea. Na tentativa de reproduzir um momento feliz do passado, para sempre perdido, buscamos objetos substitutos, que sempre serão insuficientes. A série faz uso do imaginário, do real e do simbólico na metáfora de um jogo cruel, com regras, mas sem lei. Com igualdade, mas sem justiça. Esse texto foi inspirado por uma cena, que, num breve instante de ver [4] – sob o olhar da psicanálise -, tenta jogar um ponto de luz na obscuridade da falta de sentido. 

Estamos no episódio 2,  aos trinta e três minutos e trinta segundos. Entramos no apartamento de Hwang In-ho (interpretado por Lee Byung-hum) conduzidos pelo policial Hwang Jun-ho (interpretado por Wi Ha-joon). Buscamos com ele indícios do paradeiro do irmão, misteriosamente desaparecido. Seu olhar percorre os recantos do quarto. Vemos a escrivaninha, onde repousam lado a lado um livro de Lacan (1901-1981) – que meu tradutor reconhece como “A teoria do desejo em Lacan” – e um livro do pintor Magritt (1898 – 1967). No aquário à frente, um peixe, que encontrou seu destino trágico, indica que o local foi abandonado. 

Passamos ao tempo de compreender. A cena – e talvez a série – faz referência clara ao surrealismo. Trata-se de um movimento cultural surgido na Europa do século XX, que influenciou manifestações artísticas da época como literatura, pintura e escultura. Essa expressão cultural surgiu como uma crítica ao racionalismo e ao materialismo da sociedade da época e foi fortemente inspirada em conceitos trazidos pela psicanálise, tais como inconsciente, automatismo mental, associação livre, sonhos. Um dos seus representantes foi justamente o pintor Magritt, cujo livro aparece ao lado do de Lacan na na cena descrita acima. Um dos seus quadros icônicos é o chamado “A traição das imagens”, de 1929. Nele há os dizeres “Ceci n’est pas une pipe”, (isso não é um cachimbo), mostrando justamente a imagem de um cachimbo. O que Magritt deixa claro é que a palavra não corresponde necessariamente ao objeto. Há uma disjunção entre significante e significado, que estão unidos por puro arbítrio. A imagem pode ganhar diferentes interpretações dependendo de quem a vê, assim como a palavra pode mudar de sentido conforme a percepção de quem a lê. 

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é renemagritte-cke.jpeg
A tela A traição das imagens (1929), de Magritte. Fonte: https://www.todamateria.com.br/surrealismo/[5]



Pois bem, como no surrealismo, a ausência de lógica é um dos pontos altos da série. Por que tanta violência? Por que alguém se divertiria com o sofrimento alheio? Por que tudo isso? O mundo “fantástico” é outra característica surrealista que a série retrata. Vemos o mundo infantil de jogos e brincadeiras (mas que nesse caso nada têm de divertido). Também é possível relacionar com o surrealismo a ideia de mundo paralelo da série. Os cenários dos jogos são construídos em uma ilha afastada, que os jogadores não sabem onde fica, pois estão dormindo durante todo o trajeto. É como se estivessem acessando o inconsciente por meio de sua via régia, o sonho. Outra interessante referência ao movimento cultural citado é a representação da “estranheza familiar”. Os ambientes, embora remetam a algo que os personagens conhecem e já viveram, os jogos infantis, são agora estranhos, com regras ameaçadoras e desconhecidas. 

Vejamos a relação da série com a psicanálise. Lacan, psicanalista francês, apoiando-se em Freud, na antropologia representada à sua época por Roman Jakobson e Lévi-Strausse e na linguística de Ferdinand de Saussure[6], também observa a impossibilidade das palavras de alcançarem toda a experiência do real. Segundo Lacan, o trauma fundamental que sofre todo ser humano é o encontro com a linguagem. E um dos corolários dessa ideia é sua polêmica frase: “Il n’y a pas de rapport sexuel” (a relação sexual não existe). [7]  Ou seja, não há a correspondência lógica possível entre o homem e a mulher. Isso porque não há um significante que designe o que seja “A mulher” – e nem “O homem”, acrescento. Há, sim, a contingência. A diversidade dos significados no um a um. Múltiplas singularidades. A série explora essa singularidade do Um sozinho. O vencedor está só. Por mais que tente construir laços, no jogo é cada um por si. E o prêmio custa a destruição de todos os outros. 

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é round-6-boneca-1-1.jpg
Netflix – Round 6. Fonte: BBC News Brasil [8]



Na mesma toada, a série também “brinca” com a disjunção entre significantes e significados. Os jogos de criança mantêm toda a representação infantil, seus cenários lúdicos, como a boneca emblemática no primeiro jogo, a vila com as casas da infância, em que se jogava bolinhas de gude com os amigos. Mas nada disso representa hoje o que um dia representou no passado. Por trás das cores vivas, está a morte à espreita. Os personagens buscam em vão uma lógica para se organizarem, mas logo percebem que não há sentido. É puro arbítrio. Embora se fale em igualdade e justiça, por estarem todos submetidos às mesmas regras, “igualdade” e “justiça” aqui apenas servem para justificar a necrofilia do poder. Vemos, ainda, corpos sendo recolhidos em belas caixas de presente, delicadamente ornadas com laços cor de rosa. No entanto, os humanos são tratados como objetos descartáveis cujas partes são retiradas e comercializadas.

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é round-6-dalgona-.jpeg
Netflix – Round 6. Fonte: BBC News Brasil [9]



Vemos, pois, com Lacan a desconexão entre o desejo e seu objeto. O que se deseja não está nunca naquilo em que projetamos. Na série, o dinheiro, símbolo fálico, por excelência, do capitalismo, está totalmente afastado do significado que o torna tão cobiçado. Ele serve, na série como na vida, como metáfora das fantasias de completude dos personagens: a união da família, o amor da filha, a saúde da mãe, a viagem dos sonhos, o status, o amor e respeito dos outros, a volta a um passado de felicidade.  O que se vê, ao contrário, é que nada disso se concretiza. O único vencedor, Seong Gi-Hun (interpretado por Lee Jung-jae) ganha o prêmio de 49 bilhões de wons (cerca de R$ 221 bilhões) e sai do jogo emudecido. Por um tempo, inexplicavelmente, continua repetindo os mesmos comportamentos que tinha antes de ficar rico. Não é capaz de verbalizar o trauma causado pela experiência nem de viver à altura de seu “merecido” prêmio. Sua mãe, a quem supostamente poderia ajudar com o dinheiro recebido, está morta. Entrega o irmão da moça que conheceu no jogo, a quem prometeu ajudar, aos cuidados da mãe do amigo de cuja morte ele foi responsável. Os danos são irreversíveis. E no momento em que Seong Gi-Hum supostamente deveria realizar o desejo que o animou até ali – ver a filha que estava nos Estados Unidos, ele recua. Culpa? Como nos diz Lacan, a única coisa sobre a qual devemos sentir-nos culpados é de ceder sobre nosso desejo[10]. No caso, nosso “herói” não só cedeu sobre o desejo, como também sucumbiu a esse desejo. 

Chega então o momento de concluir. A série é surreal e por isso sem qualquer compromisso com a lógica racional. Mas talvez tenha deixado uma mensagem de esperança. Há indícios da retificação da posição subjetiva do protagonista. Mesmo se descobrindo iludido e usado para a mera satisfação do gozo alheio, ele parece continuar apostando no ser humano. A última cena mostra a tentativa do protagonista de fazer com que outros não incorram no mesmo erro que ele. Mas seria possível demover um sujeito de suas fantasias de completude? Só uma nova temporada poderia esclarecer. 


[1] Netflix. Round 6. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/geral-58814559, consulta em 8.11.2021. 

[2] Waiyee Y., Lee W. ‘Round 6’: os ingredientes da série que pode se tornar a mais vista da história da Netflix. BBC News, 6 outubro 2021. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/geral-58814559, consulta em 6 de novembro de 2021. 

[3] Duarte F. Round 6: seis coisas que a série da Netflix nos ensina sobre a realidade da Coreia do Sul. BBC World Service. 18 outubro 2021. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/geral-58952413, consulta em 6 de novembro de 2021. 

[4] Lacan, J. O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. In: J. Lacan. Escritos. (pp. 197-213). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. Pag. 197 a 213. 

[5] Aidar. L. Surrealismo. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/surrealismo/, consulta em 9.11.2021.

[6] REIS, Vitor Augusto Werner dos; WERNER, Patrícia Simões de Almeida Justo da Silva. O estruturalismo na obra de Jacques Lacan: um retorno a questão da linguagem. J. psicanal.,  São Paulo ,  v. 53, n. 98, p. 331-346, jun.  2020 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-58352020000100025&lng=pt&nrm=iso&gt;. acessos em  08  nov.  2021.

[7] Lacan, J. Le Séminaire. Livre XX. Encore, 1972-1973. Texte établi par Jacques-Main Miller. Seuil, 1975, p. 14

[8] Imagem boneca https://www.bbc.com/portuguese/geral-58952413

[9] Imagem dalgona https://www.bbc.com/portuguese/geral-58952413

Memórias encobridoras

Por que algumas pessoas se lembram nitidamente de fases remotas de sua infância, enquanto outras não se lembram de quase nada ou guardam apenas traços indefinidos de alguns episódios? E por que algumas lembranças persistem apesar do tempo, e outras se esvaem? Freud se debruçou sobre essas e outras perguntas no breve texto traduzido como “Memórias encobridoras”, de 1899[1]. Nesse estudo, Freud ressalta a importância das experiências vividas na fase infantil na construção da vida psíquica adulta. 

Sobre esse tema, Freud se apoia nos resultados das pesquisas desenvolvidas pelo casal Victor e Catherine Henri em 1895, publicado em 1897[2]. Para Freud a memória está associada à importância que a cena representou para a pessoa. E isso ocorreria em adultos ou crianças, mantidas as diferenças em relação ao que se considera importante em cada um desses momentos do desenvolvimento psíquico. Segundo essa lógica, o que é essencial e produz um efeito imediato ou posterior na vida da pessoa fica armazenado, enquanto o que não é essencial é descartado da memória. Partindo desse princípio, seria razoável esperar que recordássemos com mais frequência de experiências de medo, vergonha, dor física, doenças, mortes, incêndios, nascimentos de irmãos, mudanças etc. E é exatamente o que ocorre na maioria dos casos. 

Contudo, essa regra tem exceções, principalmente para os neuróticos. A pesquisa do casal Henri e a experiência clínica de Freud demonstraram que há algumas pessoas que têm lembranças bem antigas sobre acontecimentos cotidianos e aparentemente sem importância. E esquecem completamente outros fatos que deveriam ter marcado suas lembranças. 

Pois a explicação encontrada por Freud demonstra a forma de funcionamento do inconsciente. As partes esquecidas podem ter sido na verdade omitidas e as lembranças são provavelmente cenas substitutas daquelas que realmente importavam, mas foram extraídas da memória. Isso se dá porque existem duas forças antagônicas em atividade. Uma a serviço da memória, que deseja reter uma experiência relevante e outra a serviço da resistência, que deseja proteger a pessoa da lembrança dolorosa ou carregada de uma emoção com a qual não consegue lidar no momento, por não ter recursos psíquicos para tanto. Uma força não se sobrepõe à outra, elas fazem uma “conciliação”. O resultado é a fixação na memória do evento importante, mas de uma forma alusiva. O significado original é deslocado, fazendo aparecer cenas que têm uma relação de contiguidade com o evento original, mas sem os elementos importantes. 

Esse processo é o mesmo que ocorre na formação de um sintoma neurótico : 1) há um acontecimento, 2) um conflito psíquico se instaura, 3) ocorre o recalcamento, 4) uma conciliação das forças de persistência da memória e repressão, 5) resultando na substituição do conteúdo por um outro.

Freud dá a esse fenômeno o nome de “lembrança encobridora”, conceituando-a[3] como “aquela que deve seu valor enquanto lembrança não a seu próprio conteúdo, mas às relações existentes entre esse conteúdo e algum outro que tenha sido suprimido.”

Pode também ocorrer que a lembrança seja « forjada » pelas experiências que a pessoa teve com o passar do tempo. Alguns indícios ajudam a saber se a lembrança ela é autêntica ou se foi elaborada a partir de pensamentos posteriores. Um desses indícios é se a pessoa se vê na cena como um observador e não como uma criança que está vivendo o momento. Na lembrança autêntica a pessoa deve sentir que participava da cena e não se ver de fora dela, o que não seria possível. Também é importante saber se as informações condizem com a realidade. Perguntar para os adultos é uma boa forma de saber se realmente ocorreram. Muitas vezes o sujeito junta pessoas de locais e datas diferentes, por exemplo. Ou mistura duas cenas distintas ocasiões. 

Essas « falsas memórias » ainda assim, são relevantes. Elas demonstram a existência de pensamentos recalcados. Contudo, para que haja esse recalque é fundamental que a pessoa esteja em uma fase psíquica que permita o funcionamento do mecanismo de recalque, o que geralmente ocorre em um período posterior à fase em que a experiência foi vivida, embora ali já tenha ficado a marca na memória. 

Freud questiona, inclusive, se há verdadeiramente lembranças da infância ou se são todas forjadas pela nossa experiência posterior e atual. De todo modo ele conclui que nossas lembranças infantis nos mostram nossos primeiros anos não como eles foram, mas tal como apareceram nos períodos posteriores em que as lembranças foram despertadas.

Nesse sentido o trabalho analítico é uma ferramenta útil para levantar os sentidos ocultos das memórias persistentes infantis ou suas inconsistências. Por trás da aparente inocência de uma lembrança infantil pode estar um mundo de símbolos íntimos e particulares importantes para desvendar a vida psíquica do adulto. 


[1] FREUD, Sigmund. As memórias encobridoras. Disponível em https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4628188/mod_resource/content/1/Lembranças_Encobridoras.pdf, consulta em 28.08.2021.

[2] Victor e Catherine Henri Tome III de L’Année psychologique « Enquête sur les premiers souvenirs de l’enfance » APUD Freud, Sigmund. (1899). La répétition mémoire et compulsion. Paris : Petite Biblio Payot classiques, 2019.

[3] FREUD, Sigmund. As memórias encobridoras. Disponível em https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4628188/mod_resource/content/1/Lembranças_Encobridoras.pdf, consulta em 28.08.2021.

Psicanálise: mitologia e símbolos inconscientes

Baubo. Google images.

No texto “Paralelo mitológico de uma imagem obsessiva”[1] Freud nos conta um fragmento de uma análise que ilustra a forma de funcionamento do inconsciente. Uma mistura de linguagem, mitologia e símbolos, com significados atribuídos pelo sujeito no entrelaçamento com sua história.

Era um paciente obsessivo de 21 anos, que amava, respeitava e temia bastante o pai. Contudo, os valores do pai conflitavam com os seus. O paciente esforçava-se por reprimir seus instintos sexuais, era disciplinado, cultivava elevados valores morais e espirituais, controlando com rigor seus desejos e impulsos. O pai, ao contrário do filho, era desregrado, excessivo nos prazeres da vida, como no consumo de bens materiais, de comida e na relação com mulheres.

Freud nos conta que esse paciente vivenciava prazer anal de variadas formas até dez anos de idade. Após esse período, sua vida sexual regrediu ao estágio anal prévio (estágio em que a criança começa a controlar os esfíncteres e o ato de defecar, que tem início entre os 18 meses e dois anos, indo até os quatro anos de idade). O paciente também enfrentava um conflito interno relacionado à sua sexualidade.

Durante uma certa época, quando viu seu pai entrar no quarto, começou a ter um pensamento obsessivo com uma palavra associada a uma imagem. Era a palavra “Vaterasch”, “bunda do pai” em alemão e a imagem do pai como a parte inferior de um corpo nu, com braços e pernas, mas sem a cabeça, sem os genitais e sem a parte superior do corpo. Os traços do rosto estavam desenhados no abdome.

O processo de associação livre, que consiste em falar tudo o que vem à cabeça, conduziu o paciente à palavra “Vaterasch”, uma germanização (incorporação do termo ao alemão) de “Patriarch” (patriarca). A imagem descrita seria uma caricatura do pai e lembrava uma dessas figuras metafóricas pejorativas que substituem a pessoa inteira por um único órgão, como ocorre quando falamos, por exemplo: “Sou todos ouvidos”.

Freud descobriu que havia caricaturas francesas que eram parecidas com a imagem relatada pelo paciente, com traços do rosto no abdome. Ele encontra, ao acaso, a figura que corresponde à imagem obsessiva do paciente. Trata-se de uma lenda grega[2]. Conta-se que Déméter chegou a Elêusis, em busca de sua filha sequestrada, e foi acolhida por Disaules e sua mulher, Baubo. Muito triste com o sequestro da filha, Déméter não quis aceitar a comida e a bebida que os anfitriões lhe ofereceram. Então Baubo, na tentativa de fazê-la rir, levantou a saia e lhe mostrou a barriga. A imagem que representa esse momento da lenda traz o corpo de uma mulher sem cabeça e sem peito, em cujo abdome está desenhado um rosto; a saia levantada emoldura esse rosto como uma coroa de cabelos. A imagem é associada à uma figura feminina depravada, obscena, desregrada.

A imagem e o pensamento associados pelo paciente, portanto, estavam intimamente ligadas à imagem do pai. Pode-se pensar que a obsessão e a repetição da palavra e da imagem (símbolo) demonstram o trauma do encontro com o corpo do pai e com a própria sexualidade. A figura representaria alguém “descoberto”, “castrado”, risível, sem pudor ou escrúpulos, justamente a imagem que o paciente fazia do pai e da qual tentava fugir com seus rituais ascéticos e disciplina rigorosa. O trabalho de deslocamento e condensação operados no inconsciente tentariam “esconder” o insuportáve da descoberta da castração paterna, dos próprios impulsos sexuais, que julgava condenáveis e projetava no pai.

Durante o processo de análise conteúdos inconscientes podem vir para a consciência, seja em forma de imagens, de palavras ou os dois associados. Foi o que aconteceu no caso desse rapaz. Nesse breve episódio pode-se entender o funcionamento singular do processo de análise. A manifestação do inconsciente do analisante (paciente em análise) endereçada à Freud, oferecendo-lhe as imagens e pensamentos cujo sentido é ainda obscuro. As produções do inconsciente demonstram que “isso” pensa. E pensa como uma linguagem, fazendo associações aparentemente disprovidas de sentido, usando mitos, metonímias (substituindo uma coisa por outra, a imagem pelo pai, um significado por outro).

Não há, segundo Lacan, verdade e significação fora do campo da fala e da linguagem. Ambas funcionam como símbolos, substituindo metaforicamente a coisa em si. O inconsciente aparece então, como o discurso do Outro, o Outro da cultura, da civilização, que é internalizado pelo sujeito, produzindo efeitos de significação[3]. Os mitos funcionam como transmissão desse Outro da Cultura que precede o sujeito e o atravessa, que lhe funda, ainda que ele não saiba disso conscientemente. Não por outro motivo, Freud afirma que o sujeito não é senhor na nossa própria casa[4]. Há visitantes íntimos e ao mesmo tempo estranhos em cada sujeito.

Freud, com seu desejo de analista, sua curiosidade científica e sua elevada cultura põe seu corpo e seu inconsciente à serviço do analisante. A interpretação é ampliada para incluir a história psíquica do paciente, seus próprios relatos, seus conflitos e relações, suas experiências pregressas e atuais, os símbolos e a cultura na qual o analisaste está imerso. A leitura do “sintoma” é feita então de forma singular e precisa para aquele paciente. Isso é o que pode produzir um efeito de sentido com todas as suas consequências.

****


[1] Freud, Sigmund, 1856-1939. Introducão ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos (1914/1916). São Paulo: Companhia das letras, 2010.

[2] Referência de Freud: explicações sobre a imagem encontram-se na obra “Cultes, mythes et religions, de Salomon Reinach (1912).

[3] O Outro, com “O” maiúsculo se distingue do outro (minúsculo). Este último é tratado por Lacan como o outro com o qual nos identificamos, aquele que se assemelha a nós.

[4] Freud, Sigmund., 1917. Une difficulté de la psychanalyse. Disponsível em https://uqac.on.worldcat.org/v2/search/detail/813554939?queryString=Freud%20une%20difficulte%20en%20psychanalyse&clusterResults=true&groupVariantRecords=false, consulta em 22 de outubro de 2021.