
O sujeito é dividido. É tudo, nada, todos, ninguém; estrangeiro e íntimo de si. Surpreende-se. Decifrar-se. Despe-se. Recria-se. Sim, respondo ao poeta, traduzir-se é arte. Mas também poderia ser psicanálise.
TRADUZIR-SE
Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
Ferreira Gullar. Na vertigem do dia, 1980.
https://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm%3Fsid%3D1042/textos-escolhidos