
Round 6, ou Squid Game (O jogo da lula) é uma série lançada em setembro de 2021, dirigida e escrita por Hwang Dong-hyuk, que começou a concebê-la ainda em 2008.[2] Muito tempo de dedicação e trabalho fizeram o sucesso meteórico na Netflix e redes sociais do mundo inteiro. As discussões que suscita variam em temas como capitalismo e seus “restos”, desigualdade social, pobreza, misoginia, crise política, corrupção[3], banalização da vida humana, medo e a desconfiança no outro. Mas para além disso, a dramática e violenta trama escancara o trauma: a disjunção entre o desejo e sua representação, de outro modo, entre o significante e o significado. Sem filtro, somos expostos, indefesos, ao real desse “jogo” macabro, que bem pode ser visto como a metáfora da vida humana contemporânea. Na tentativa de reproduzir um momento feliz do passado, para sempre perdido, buscamos objetos substitutos, que sempre serão insuficientes. A série faz uso do imaginário, do real e do simbólico na metáfora de um jogo cruel, com regras, mas sem lei. Com igualdade, mas sem justiça. Esse texto foi inspirado por uma cena, que, num breve instante de ver [4] – sob o olhar da psicanálise -, tenta jogar um ponto de luz na obscuridade da falta de sentido.
Estamos no episódio 2, aos trinta e três minutos e trinta segundos. Entramos no apartamento de Hwang In-ho (interpretado por Lee Byung-hum) conduzidos pelo policial Hwang Jun-ho (interpretado por Wi Ha-joon). Buscamos com ele indícios do paradeiro do irmão, misteriosamente desaparecido. Seu olhar percorre os recantos do quarto. Vemos a escrivaninha, onde repousam lado a lado um livro de Lacan (1901-1981) – que meu tradutor reconhece como “A teoria do desejo em Lacan” – e um livro do pintor Magritt (1898 – 1967). No aquário à frente, um peixe, que encontrou seu destino trágico, indica que o local foi abandonado.
Passamos ao tempo de compreender. A cena – e talvez a série – faz referência clara ao surrealismo. Trata-se de um movimento cultural surgido na Europa do século XX, que influenciou manifestações artísticas da época como literatura, pintura e escultura. Essa expressão cultural surgiu como uma crítica ao racionalismo e ao materialismo da sociedade da época e foi fortemente inspirada em conceitos trazidos pela psicanálise, tais como inconsciente, automatismo mental, associação livre, sonhos. Um dos seus representantes foi justamente o pintor Magritt, cujo livro aparece ao lado do de Lacan na na cena descrita acima. Um dos seus quadros icônicos é o chamado “A traição das imagens”, de 1929. Nele há os dizeres “Ceci n’est pas une pipe”, (isso não é um cachimbo), mostrando justamente a imagem de um cachimbo. O que Magritt deixa claro é que a palavra não corresponde necessariamente ao objeto. Há uma disjunção entre significante e significado, que estão unidos por puro arbítrio. A imagem pode ganhar diferentes interpretações dependendo de quem a vê, assim como a palavra pode mudar de sentido conforme a percepção de quem a lê.

Pois bem, como no surrealismo, a ausência de lógica é um dos pontos altos da série. Por que tanta violência? Por que alguém se divertiria com o sofrimento alheio? Por que tudo isso? O mundo “fantástico” é outra característica surrealista que a série retrata. Vemos o mundo infantil de jogos e brincadeiras (mas que nesse caso nada têm de divertido). Também é possível relacionar com o surrealismo a ideia de mundo paralelo da série. Os cenários dos jogos são construídos em uma ilha afastada, que os jogadores não sabem onde fica, pois estão dormindo durante todo o trajeto. É como se estivessem acessando o inconsciente por meio de sua via régia, o sonho. Outra interessante referência ao movimento cultural citado é a representação da “estranheza familiar”. Os ambientes, embora remetam a algo que os personagens conhecem e já viveram, os jogos infantis, são agora estranhos, com regras ameaçadoras e desconhecidas.
Vejamos a relação da série com a psicanálise. Lacan, psicanalista francês, apoiando-se em Freud, na antropologia representada à sua época por Roman Jakobson e Lévi-Strausse e na linguística de Ferdinand de Saussure[6], também observa a impossibilidade das palavras de alcançarem toda a experiência do real. Segundo Lacan, o trauma fundamental que sofre todo ser humano é o encontro com a linguagem. E um dos corolários dessa ideia é sua polêmica frase: “Il n’y a pas de rapport sexuel” (a relação sexual não existe). [7] Ou seja, não há a correspondência lógica possível entre o homem e a mulher. Isso porque não há um significante que designe o que seja “A mulher” – e nem “O homem”, acrescento. Há, sim, a contingência. A diversidade dos significados no um a um. Múltiplas singularidades. A série explora essa singularidade do Um sozinho. O vencedor está só. Por mais que tente construir laços, no jogo é cada um por si. E o prêmio custa a destruição de todos os outros.

Na mesma toada, a série também “brinca” com a disjunção entre significantes e significados. Os jogos de criança mantêm toda a representação infantil, seus cenários lúdicos, como a boneca emblemática no primeiro jogo, a vila com as casas da infância, em que se jogava bolinhas de gude com os amigos. Mas nada disso representa hoje o que um dia representou no passado. Por trás das cores vivas, está a morte à espreita. Os personagens buscam em vão uma lógica para se organizarem, mas logo percebem que não há sentido. É puro arbítrio. Embora se fale em igualdade e justiça, por estarem todos submetidos às mesmas regras, “igualdade” e “justiça” aqui apenas servem para justificar a necrofilia do poder. Vemos, ainda, corpos sendo recolhidos em belas caixas de presente, delicadamente ornadas com laços cor de rosa. No entanto, os humanos são tratados como objetos descartáveis cujas partes são retiradas e comercializadas.

Vemos, pois, com Lacan a desconexão entre o desejo e seu objeto. O que se deseja não está nunca naquilo em que projetamos. Na série, o dinheiro, símbolo fálico, por excelência, do capitalismo, está totalmente afastado do significado que o torna tão cobiçado. Ele serve, na série como na vida, como metáfora das fantasias de completude dos personagens: a união da família, o amor da filha, a saúde da mãe, a viagem dos sonhos, o status, o amor e respeito dos outros, a volta a um passado de felicidade. O que se vê, ao contrário, é que nada disso se concretiza. O único vencedor, Seong Gi-Hun (interpretado por Lee Jung-jae) ganha o prêmio de 49 bilhões de wons (cerca de R$ 221 bilhões) e sai do jogo emudecido. Por um tempo, inexplicavelmente, continua repetindo os mesmos comportamentos que tinha antes de ficar rico. Não é capaz de verbalizar o trauma causado pela experiência nem de viver à altura de seu “merecido” prêmio. Sua mãe, a quem supostamente poderia ajudar com o dinheiro recebido, está morta. Entrega o irmão da moça que conheceu no jogo, a quem prometeu ajudar, aos cuidados da mãe do amigo de cuja morte ele foi responsável. Os danos são irreversíveis. E no momento em que Seong Gi-Hum supostamente deveria realizar o desejo que o animou até ali – ver a filha que estava nos Estados Unidos, ele recua. Culpa? Como nos diz Lacan, a única coisa sobre a qual devemos sentir-nos culpados é de ceder sobre nosso desejo[10]. No caso, nosso “herói” não só cedeu sobre o desejo, como também sucumbiu a esse desejo.
Chega então o momento de concluir. A série é surreal e por isso sem qualquer compromisso com a lógica racional. Mas talvez tenha deixado uma mensagem de esperança. Há indícios da retificação da posição subjetiva do protagonista. Mesmo se descobrindo iludido e usado para a mera satisfação do gozo alheio, ele parece continuar apostando no ser humano. A última cena mostra a tentativa do protagonista de fazer com que outros não incorram no mesmo erro que ele. Mas seria possível demover um sujeito de suas fantasias de completude? Só uma nova temporada poderia esclarecer.
[1] Netflix. Round 6. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/geral-58814559, consulta em 8.11.2021.
[2] Waiyee Y., Lee W. ‘Round 6’: os ingredientes da série que pode se tornar a mais vista da história da Netflix. BBC News, 6 outubro 2021. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/geral-58814559, consulta em 6 de novembro de 2021.
[3] Duarte F. Round 6: seis coisas que a série da Netflix nos ensina sobre a realidade da Coreia do Sul. BBC World Service. 18 outubro 2021. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/geral-58952413, consulta em 6 de novembro de 2021.
[4] Lacan, J. O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. In: J. Lacan. Escritos. (pp. 197-213). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. Pag. 197 a 213.
[5] Aidar. L. Surrealismo. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/surrealismo/, consulta em 9.11.2021.
[6] REIS, Vitor Augusto Werner dos; WERNER, Patrícia Simões de Almeida Justo da Silva. O estruturalismo na obra de Jacques Lacan: um retorno a questão da linguagem. J. psicanal., São Paulo , v. 53, n. 98, p. 331-346, jun. 2020 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-58352020000100025&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 08 nov. 2021.
[7] Lacan, J. Le Séminaire. Livre XX. Encore, 1972-1973. Texte établi par Jacques-Main Miller. Seuil, 1975, p. 14
[8] Imagem boneca https://www.bbc.com/portuguese/geral-58952413
[9] Imagem dalgona https://www.bbc.com/portuguese/geral-58952413