
Por que algumas pessoas se lembram nitidamente de fases remotas de sua infância, enquanto outras não se lembram de quase nada ou guardam apenas traços indefinidos de alguns episódios? E por que algumas lembranças persistem apesar do tempo, e outras se esvaem? Freud se debruçou sobre essas e outras perguntas no breve texto traduzido como “Memórias encobridoras”, de 1899[1]. Nesse estudo, Freud ressalta a importância das experiências vividas na fase infantil na construção da vida psíquica adulta.
Sobre esse tema, Freud se apoia nos resultados das pesquisas desenvolvidas pelo casal Victor e Catherine Henri em 1895, publicado em 1897[2]. Para Freud a memória está associada à importância que a cena representou para a pessoa. E isso ocorreria em adultos ou crianças, mantidas as diferenças em relação ao que se considera importante em cada um desses momentos do desenvolvimento psíquico. Segundo essa lógica, o que é essencial e produz um efeito imediato ou posterior na vida da pessoa fica armazenado, enquanto o que não é essencial é descartado da memória. Partindo desse princípio, seria razoável esperar que recordássemos com mais frequência de experiências de medo, vergonha, dor física, doenças, mortes, incêndios, nascimentos de irmãos, mudanças etc. E é exatamente o que ocorre na maioria dos casos.
Contudo, essa regra tem exceções, principalmente para os neuróticos. A pesquisa do casal Henri e a experiência clínica de Freud demonstraram que há algumas pessoas que têm lembranças bem antigas sobre acontecimentos cotidianos e aparentemente sem importância. E esquecem completamente outros fatos que deveriam ter marcado suas lembranças.
Pois a explicação encontrada por Freud demonstra a forma de funcionamento do inconsciente. As partes esquecidas podem ter sido na verdade omitidas e as lembranças são provavelmente cenas substitutas daquelas que realmente importavam, mas foram extraídas da memória. Isso se dá porque existem duas forças antagônicas em atividade. Uma a serviço da memória, que deseja reter uma experiência relevante e outra a serviço da resistência, que deseja proteger a pessoa da lembrança dolorosa ou carregada de uma emoção com a qual não consegue lidar no momento, por não ter recursos psíquicos para tanto. Uma força não se sobrepõe à outra, elas fazem uma “conciliação”. O resultado é a fixação na memória do evento importante, mas de uma forma alusiva. O significado original é deslocado, fazendo aparecer cenas que têm uma relação de contiguidade com o evento original, mas sem os elementos importantes.
Esse processo é o mesmo que ocorre na formação de um sintoma neurótico : 1) há um acontecimento, 2) um conflito psíquico se instaura, 3) ocorre o recalcamento, 4) uma conciliação das forças de persistência da memória e repressão, 5) resultando na substituição do conteúdo por um outro.
Freud dá a esse fenômeno o nome de “lembrança encobridora”, conceituando-a[3] como “aquela que deve seu valor enquanto lembrança não a seu próprio conteúdo, mas às relações existentes entre esse conteúdo e algum outro que tenha sido suprimido.”
Pode também ocorrer que a lembrança seja « forjada » pelas experiências que a pessoa teve com o passar do tempo. Alguns indícios ajudam a saber se a lembrança ela é autêntica ou se foi elaborada a partir de pensamentos posteriores. Um desses indícios é se a pessoa se vê na cena como um observador e não como uma criança que está vivendo o momento. Na lembrança autêntica a pessoa deve sentir que participava da cena e não se ver de fora dela, o que não seria possível. Também é importante saber se as informações condizem com a realidade. Perguntar para os adultos é uma boa forma de saber se realmente ocorreram. Muitas vezes o sujeito junta pessoas de locais e datas diferentes, por exemplo. Ou mistura duas cenas distintas ocasiões.
Essas « falsas memórias » ainda assim, são relevantes. Elas demonstram a existência de pensamentos recalcados. Contudo, para que haja esse recalque é fundamental que a pessoa esteja em uma fase psíquica que permita o funcionamento do mecanismo de recalque, o que geralmente ocorre em um período posterior à fase em que a experiência foi vivida, embora ali já tenha ficado a marca na memória.
Freud questiona, inclusive, se há verdadeiramente lembranças da infância ou se são todas forjadas pela nossa experiência posterior e atual. De todo modo ele conclui que nossas lembranças infantis nos mostram nossos primeiros anos não como eles foram, mas tal como apareceram nos períodos posteriores em que as lembranças foram despertadas.
Nesse sentido o trabalho analítico é uma ferramenta útil para levantar os sentidos ocultos das memórias persistentes infantis ou suas inconsistências. Por trás da aparente inocência de uma lembrança infantil pode estar um mundo de símbolos íntimos e particulares importantes para desvendar a vida psíquica do adulto.
[1] FREUD, Sigmund. As memórias encobridoras. Disponível em https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4628188/mod_resource/content/1/Lembranças_Encobridoras.pdf, consulta em 28.08.2021.
[2] Victor e Catherine Henri Tome III de L’Année psychologique « Enquête sur les premiers souvenirs de l’enfance » APUD Freud, Sigmund. (1899). La répétition mémoire et compulsion. Paris : Petite Biblio Payot classiques, 2019.
[3] FREUD, Sigmund. As memórias encobridoras. Disponível em https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4628188/mod_resource/content/1/Lembranças_Encobridoras.pdf, consulta em 28.08.2021.