Psicanálise: mitologia e símbolos inconscientes

Baubo. Google images.

No texto “Paralelo mitológico de uma imagem obsessiva”[1] Freud nos conta um fragmento de uma análise que ilustra a forma de funcionamento do inconsciente. Uma mistura de linguagem, mitologia e símbolos, com significados atribuídos pelo sujeito no entrelaçamento com sua história.

Era um paciente obsessivo de 21 anos, que amava, respeitava e temia bastante o pai. Contudo, os valores do pai conflitavam com os seus. O paciente esforçava-se por reprimir seus instintos sexuais, era disciplinado, cultivava elevados valores morais e espirituais, controlando com rigor seus desejos e impulsos. O pai, ao contrário do filho, era desregrado, excessivo nos prazeres da vida, como no consumo de bens materiais, de comida e na relação com mulheres.

Freud nos conta que esse paciente vivenciava prazer anal de variadas formas até dez anos de idade. Após esse período, sua vida sexual regrediu ao estágio anal prévio (estágio em que a criança começa a controlar os esfíncteres e o ato de defecar, que tem início entre os 18 meses e dois anos, indo até os quatro anos de idade). O paciente também enfrentava um conflito interno relacionado à sua sexualidade.

Durante uma certa época, quando viu seu pai entrar no quarto, começou a ter um pensamento obsessivo com uma palavra associada a uma imagem. Era a palavra “Vaterasch”, “bunda do pai” em alemão e a imagem do pai como a parte inferior de um corpo nu, com braços e pernas, mas sem a cabeça, sem os genitais e sem a parte superior do corpo. Os traços do rosto estavam desenhados no abdome.

O processo de associação livre, que consiste em falar tudo o que vem à cabeça, conduziu o paciente à palavra “Vaterasch”, uma germanização (incorporação do termo ao alemão) de “Patriarch” (patriarca). A imagem descrita seria uma caricatura do pai e lembrava uma dessas figuras metafóricas pejorativas que substituem a pessoa inteira por um único órgão, como ocorre quando falamos, por exemplo: “Sou todos ouvidos”.

Freud descobriu que havia caricaturas francesas que eram parecidas com a imagem relatada pelo paciente, com traços do rosto no abdome. Ele encontra, ao acaso, a figura que corresponde à imagem obsessiva do paciente. Trata-se de uma lenda grega[2]. Conta-se que Déméter chegou a Elêusis, em busca de sua filha sequestrada, e foi acolhida por Disaules e sua mulher, Baubo. Muito triste com o sequestro da filha, Déméter não quis aceitar a comida e a bebida que os anfitriões lhe ofereceram. Então Baubo, na tentativa de fazê-la rir, levantou a saia e lhe mostrou a barriga. A imagem que representa esse momento da lenda traz o corpo de uma mulher sem cabeça e sem peito, em cujo abdome está desenhado um rosto; a saia levantada emoldura esse rosto como uma coroa de cabelos. A imagem é associada à uma figura feminina depravada, obscena, desregrada.

A imagem e o pensamento associados pelo paciente, portanto, estavam intimamente ligadas à imagem do pai. Pode-se pensar que a obsessão e a repetição da palavra e da imagem (símbolo) demonstram o trauma do encontro com o corpo do pai e com a própria sexualidade. A figura representaria alguém “descoberto”, “castrado”, risível, sem pudor ou escrúpulos, justamente a imagem que o paciente fazia do pai e da qual tentava fugir com seus rituais ascéticos e disciplina rigorosa. O trabalho de deslocamento e condensação operados no inconsciente tentariam “esconder” o insuportáve da descoberta da castração paterna, dos próprios impulsos sexuais, que julgava condenáveis e projetava no pai.

Durante o processo de análise conteúdos inconscientes podem vir para a consciência, seja em forma de imagens, de palavras ou os dois associados. Foi o que aconteceu no caso desse rapaz. Nesse breve episódio pode-se entender o funcionamento singular do processo de análise. A manifestação do inconsciente do analisante (paciente em análise) endereçada à Freud, oferecendo-lhe as imagens e pensamentos cujo sentido é ainda obscuro. As produções do inconsciente demonstram que “isso” pensa. E pensa como uma linguagem, fazendo associações aparentemente disprovidas de sentido, usando mitos, metonímias (substituindo uma coisa por outra, a imagem pelo pai, um significado por outro).

Não há, segundo Lacan, verdade e significação fora do campo da fala e da linguagem. Ambas funcionam como símbolos, substituindo metaforicamente a coisa em si. O inconsciente aparece então, como o discurso do Outro, o Outro da cultura, da civilização, que é internalizado pelo sujeito, produzindo efeitos de significação[3]. Os mitos funcionam como transmissão desse Outro da Cultura que precede o sujeito e o atravessa, que lhe funda, ainda que ele não saiba disso conscientemente. Não por outro motivo, Freud afirma que o sujeito não é senhor na nossa própria casa[4]. Há visitantes íntimos e ao mesmo tempo estranhos em cada sujeito.

Freud, com seu desejo de analista, sua curiosidade científica e sua elevada cultura põe seu corpo e seu inconsciente à serviço do analisante. A interpretação é ampliada para incluir a história psíquica do paciente, seus próprios relatos, seus conflitos e relações, suas experiências pregressas e atuais, os símbolos e a cultura na qual o analisaste está imerso. A leitura do “sintoma” é feita então de forma singular e precisa para aquele paciente. Isso é o que pode produzir um efeito de sentido com todas as suas consequências.

****


[1] Freud, Sigmund, 1856-1939. Introducão ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos (1914/1916). São Paulo: Companhia das letras, 2010.

[2] Referência de Freud: explicações sobre a imagem encontram-se na obra “Cultes, mythes et religions, de Salomon Reinach (1912).

[3] O Outro, com “O” maiúsculo se distingue do outro (minúsculo). Este último é tratado por Lacan como o outro com o qual nos identificamos, aquele que se assemelha a nós.

[4] Freud, Sigmund., 1917. Une difficulté de la psychanalyse. Disponsível em https://uqac.on.worldcat.org/v2/search/detail/813554939?queryString=Freud%20une%20difficulte%20en%20psychanalyse&clusterResults=true&groupVariantRecords=false, consulta em 22 de outubro de 2021.

Deixe um comentário